Família Pestana: Conheça o aluno que foi adotado por uma escola

O aluno Caio sendo recebido no retorno às aulas
A Escola Estadual José Ribamar Pestana, localizada no bairro Nova Brasília, em Santana, viveu uma tarde diferente na última quarta-feira (26/04), onde um evento receptivo foi organizado com seus mais de 400 alunos (do turno da tarde). 

Tudo em prol do retorno de um aluno que, apesar de se parecer convencional com outros garotos da mesma instituição, vem sendo visto como um exemplo digno de luta, dedicação e seriedade diante dos objetivos que pretende atingir através dos estudos. 

A história que o estudante Caio Figueira Cardoso, de 14 anos, vem atravessando nos últimos quatro meses é o conteúdo suficiente para demonstrar (em termos sociais e pedagógicos) que não existem limites que podem ser superados quando a vontade de seguir um trajeto honroso de querer estudar pode falar mais alto. 

Caio mora em trechos intrafegáveis do seu bairro
Um suburbano estudioso
Órfão de mãe, Caio é um daqueles pré-adolescentes que também sonha em conquistar seus sonhos através dos estudos, independente das barreiras que possam surgir.

Residindo numa área de difícil acesso viário – no final da Rua Ubaldo Figueira, no bairro Provedor I –, a forma mais rápida e ágil de se chegar à sua humilde casa é caminhando mais de 400m por um trecho de rua que, segundo os moradores mais antigos do local, bem pouco vem sendo vista pelas autoridades. 

“Em época de campanha é um mar de promessas que vemos por aqui, mas depois, nada”, disse o morador Amiraldo Coutinho, que reside no trecho há quase duas décadas. “Se eles já não aparecem no período de verão, agora é que eles não gostam de vim mesmo”. 

Mais de 3km de distância de sua casa para escola
Bem além do péssimo trecho que o estudante enfrenta, ainda existem outros 300m de passarelas que somam no índice de dificuldades colocados para alguém que não se intimidou em querer chegar ao seu destino diário, ou seja, a escola. 

Porém, a verdadeira distância final entre sua casa e o educandário ultrapassam mais de 3km se for levado em linha regular das vias (ruas, travessas e avenidas). Mas para reduzir essa longa distância, Caio vinha recorrendo aos chamados “atalhos” que garantem um tempo mais vantajoso. 

“As pessoas olham aquela longa distância pra chegar numa escola, mas se você aprender a conhecer seu bairro, verá que existem formas mais fáceis de ‘cortar’ caminho e ganhar tempo”, explicou o estudante. 

Caio tenta caminhar pelas pontes
E foi aplicando essa ideologia de ganhar tempo e ser articulador fez com que Caio se tornasse sempre respeitado entre os colegas e funcionários da escola. 

Um “incidente” marcante
Com propósitos a serem atingidos, Caio acabou sendo surpreendido por um fato traçado de forma inesperada pelo destino que mudaria drasticamente a linha do tempo de sua vida: na manhã do dia 06 de dezembro de 2016, Caio seria mais uma vítima da chamada “violência escolar”, onde um aluno da mesma escola lhe perfuraria as costas com uma tesoura pequena. 

As consequências físicas? Por pouco teria sido fatal por está a alguns centímetros do pulmão, e poderia se tornar motivos tão fortes como a razão inexplicável do outro estudante ter lhe perfurado. Porém, a situação acabou sendo outra. 

Foram semanas de exames e consultas que apenas lhe deixavam com o pensamento frustrado de querer realmente ou não continuar com os estudos. 

A escola "abraçou" a idéia de adota-lo
“Ele pegou um choque emocional tão grande que achava que não teria mais sentido continuar seus estudos após essa fatalidade”, disse a professora Lau Pires, que leciona na mesma escola de Caio. 

Escola: um amparo familiar
Apesar do fatídico ter lhe deixado numa situação que poderia destruir diversos sonhos, Caio acabou ganhando um surpreendente apoio institucional: a Escola em que era lotado como aluno abraçou com espontaneidade e amor a ideia de ajudar de forma bem envolvente: passaria a ser tratado como um filho. 

Existente há mais de 25 anos, a Escola José Ribamar Pestana possui mais de 1.000 alunos matriculados e cerca de 100 servidores ali lotados, que já se desdobram de inúmeras maneiras para educar e fomentar todos os meios educacionais e pedagógicos para seus estudantes. 

Feito uma recepção no retorno às aulas de Caio
“Buscamos os meios mais atuais e essenciais para aplicar em prol dos estudantes”, explicou o diretor da instituição Anísio Marques. 

Com algumas dependências fisicamente precárias, a dedicação coletiva se tornou uma das armas utilizadas no dia-a-dia desses colaboradores da escola, distribuídos entre professores, pedagogos, corpo técnico e administrativo, além dos profissionais da área de serviços gerais. 

Com uma equipe dessas – fortemente preparada – houve-se a iniciativa de trazer de volta um aluno que não apenas estava afastado das atividades escolares devido um “incidente”, mas também que lutava (e ainda quer lutar) para alcançar seus objetivos: crescer de forma intelectual através dos estudos e ingressar no mercado de trabalho. 

“Fizemos várias reuniões para tentar encontrar as melhores formas possíveis que pudessem favorecer a continuidade dos estudos do Caio após retornar às aulas, e nós estamos empenhando essas ideias diariamente”, esclareceu a pedagoga Nazaré Xavier, que vem acompanhando a situação do estudante desde o ocorrido. 

Professora Lau Pires discursando na sala de aula
Projetos Sociais
Há quem pense que a Escola Ribamar Pestana não desenvolve sérias atividades de âmbito social. Puro engano. Além de manter uma biblioteca e o programa TV Escola, outro importante projeto já vem sendo empenhado na instituição: o projeto “Eu Faço a Paz”. 

Um projeto social interno que pretende não apenas envolver a classe estudantil da entidade, mas dentro das condições possíveis, também favorecer a comunidade geral escolar. 

“O fato que aconteceu com o Caio apenas nos deu mais força para desenvolver projetos desse tipo e darmos um fim a diversos problemas”, disse Lau. 

Entre as ações planejadas pelo projeto está a valorização do dia 21 de setembro, data em que se comemora anualmente o “Dia Internacional da Paz”. 

“Com o projeto, vamos sugerir que os alunos procurem compor letras musicais com mensagens de paz, ou então criem logotipos que possam transmitir esse assunto e a não-violência para toda a escola e até mesmo para o restante da sociedade”, detalhou a professora Lau. 

Futuro promissor
Apesar de não ter nascido com qualquer comportamento especial, Caio acabou sendo incluído numa lista prioritária entre outros 17 alunos da mesma escola, que integram o Plano de Inclusão Escolar, que destina um número limitado de profissionais para acompanhar o desenvolvimento escolar de alunos desse tipo. 

“Eu poderia ter sido um covarde e não ter continuado meus estudos, mas hoje vejo que muitas pessoas lutaram para que retornasse às aulas”, reconhece Caio, que acabou tendo outros privilégios dados pelos seus professores. 

Caio Figueira com sua classe de colegas
Além de ter um carro exclusivo (concedido voluntariamente por uma de suas professoras) para busca-lo diariamente nas imediações de sua residência, todo seu material escolar foi carinhosamente providenciado pelo Corpo Técnico da instituição, que também desembolsa R$ 130 mensais para ser aplicado nos tratamentos de fisioterapia no estudante. 

“Até na compra da medicação que estava sendo usada nos ferimentos pós-cirúrgicos, é nós que estamos nos virando para ajudar”, ressaltou um dos professores da escola.

Atualmente tramita pelos meios da Promotoria de Justiça de Santana um processo que busca garantir um rendimento beneficiário ao estudante que vem provando dentro do seu limite físico e emocional o interesse de continuar os estudos e auxilia-lo em algumas dificuldades impostas pelo destino. 

“Não consigo me imaginar retornando às aulas se não fosse por essa ‘família’ que me adotou”, disse Caio. 

Pois é justamente uma união dessa proporção que não apenas veio retomando a ideia de alunos como Caio Figueira a acreditar nos motivos de dizerem que a escola “é o nosso 2º lugar”, como também enriquecem a certeza de que as entidades públicas de ensino ultrapassam as barreiras do companheirismo, da parceria, da dedicação socialmente pedagógica e do amor ao próximo.

Comentários

  1. Gostaria de agradecer todos os professores, desta escola pela linda recepção e solidariedade que tiveram com o meu sobrinho,sei que todos serão recompensados por este ato...

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  2. Parabéns à Escola Pestana pelo lindo gesto de humanidade! !!!!

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