Entre mortes e conquistas, o balizamento do Rio Amazonas foi a mais dura missão feita pela Marinha Brasileira

Em 1951, a Marinha assumiu uma missão arriscada
Com o advento da Indústria e Comércio de Minérios Ltda (ICOMI) o então Território Federal do Amapá, através de suas primeiras pesquisas minerais, ainda em meados da década de 1940, ante ao vulto de seu projeto industrial para a dinamização das reservas de manganês de Serra do Navio, pouco valeria à exploração das jazidas manganíferas, se o minério não pudesse chegar a volumes consideráveis aos mercados internacionais. 

Por outro lado, como desenvolver a industrialização na região se o grande Rio ficasse inacessível aos grandes navios e cargueiros, de maior calado, não apenas para o Porto de Santana (AP), mas também para outros portos brasileiros que estariam situados em pontos estratégicos com o Oceano Atlântico. 

Foi dentro de tais razões geográficas, que levou a Marinha de Guerra do Brasil, através de sua Diretoria de Hidrografia e Navegação (DHN) a decidir pela imediata realização do levantamento hidrográfico do Canal Norte do Rio Amazonas e o seu balizamento. 

Em novembro de 1951, numa operação conjunta do Governo do Território Federal do Amapá (GTFA) e a ICOMI, ambos solicitaram ao Ministério da Marinha, em ofício direcionado ao DHN, as primeiras providências técnicas para que fosse efetuado o referido levantamento do Canal Norte do maior rio fluvial do mundo. 

Com alto custo, a missão foi dividida em etapas
Atendendo tal pedido, na manhã do dia 23 de junho de 1952, aportava em frente da cidade de Macapá, o Navio Hidrográfico (NHI) “Rio Branco”, com os componentes da 1ª Comissão do Amapá, comandado pelo Capitão-tenente Maximiano da Silva, Fonseca, que logo deu início aos chamados trabalhos de campo. 

Inicialmente efetuaram o que o serviço náutico denomina de “medição de base”, utilizando o Aeroporto de Macapá. Posteriormente, mediante a sistemática hidrográfica habitual, passaram a efetuar a metodologia de operação de triangulação, que, por falta de pontos notáveis (o terreno ser aspecto topográfico uniforme), tiveram que aproveitar as árvores mais altas do local, transformando-as em o que classificaram de “torres”, que variavam entre 06 a 08 metros de altura. 

Durante alguns meses, com auxílio de lanchas e ubás cedidas pela ICOMI e pelo GTFA, foram efetuadas as demarcações náuticas (entre a cidade Macapá e a localidade de “Pau Cavado”), considerados como pontos marginais do Rio Amazonas, para ali serem instalados os faróis de balizamento. 

A equipe do NHI “Rio Branco” enfrentou toda a sorte de empecilhos que a região lhe reservara, parecia que tudo contribuía para que se tornasse cada vez mais difícil o cumprimento dessa missão de balizamento, mas com muita determinação, a equipe concluiu a tarefa em setembro daquele ano, entre a cidade de Macapá e o Arquipélago do Bailique. 

O "Rio Branco" foi pioneiro nesse tipo de trabalho
Logo em seguida, a equipe do NHI, com muita persistência e técnica, iniciou as sondagens entre as localidades de Pau Cavado e Mupéua (próximo ao extremo norte da Ilha Caviana).

Terminada essa tarefa, efetuaram as sondagens entre a localidade de Mupéua e o Bailique. Daí a equipe retornou para Macapá para concluir as sondagens entre a capital amapaense e a Ilha Pedreira, realizadas novamente pela lanchas e ubás de suas parceiras. 

Em 15 de abril de 1953, a equipe do NHI “Rio Branco” encerrou suas atividades de projeção hidrográfica na região, concluindo a sondagem de todo o braço norte do Rio Amazonas, que ia da cidade de Macapá até o Arquipélago do Bailique, valendo dizer que o referido Canal Norte ainda não estava apto para acesso de navios de grande calado, ainda faltando as sondagens da Barra Norte, ou seja, da região do Bailique para fora, pois, não puderam ser realizados devido à falta de equipamentos em função de inúmeros bancos de rebentações existentes naquela região, ficando tais serviços para serem feitos por uma outra Comissão marítima que seria enviada ao Amapá. 

Em Outubro de 1954 (um ano e meio depois), o NHI “Rio Branco” retorna ao Amapá, dessa vez trazendo uma 2ª Comissão, agora chefiada pelo Comandante Paulo Irineu Roxo Freitas, com a finalidade de concluir os trabalhos de sondagem do Canal e da Barra Norte, conforme acordo firmado entre o GTFA, a ICOMI e o Ministério da Marinha. 

Métodos modernos foram usados nessa tarefa
Dispondo agora de equipamentos altamente técnicos e suficientes para a tarefa que iriam desempenhar, a 2ª Comissão começou a missão instalando as réguas de marés nas localidades de Limão do Curuá e na Ilha do Brigue (em Guimarães), onde ali deram início às suas observações. 

Imediatamente foi levantado um farolete na Ilha do Pará, e, preparada a folha de sondagem do Arquipélago do Bailique. 

Durante dois meses (no primeiro trimestre de 1955), a equipe do NHI paralisou os serviços para que fossem realizados reparos físicos e mecânicos no navio. Ao reiniciar os trabalhos, a equipe, em apenas 03 dias de atividades incessantes, realizou mais de 800 posições de sondagens. 

Posteriormente, em abril daquele ano, o Ministério da Marinha Brasileira adquiriu nos EUA um aparelho de nome “Raydist”, que consistia de um método eletrônico para a localização de sondagens, sendo ele usado pela 1ª vez no país, onde o rendimento da tarefa aumentou consideravelmente. 

O chefe da 2ª Comissão no Amapá, Comandante Paulo Irineu Roxo Freitas, prometera aos parceiros concluir o levantamento hidrográfico do Canal e da Barra Norte até o fim de dezembro de 1955. No entanto, contando com a boa vontade e o alto preparo técnico de sua equipe conseguiu encerrá-lo no dia 02 daquele mês anunciado. 

Foram 14 meses de esforços consecutivos em que mais de duas centenas de homens de nossa valorosa Marinha de Guerra, considerando-se que as duas Comissões lutaram bravamente, mesmo diante das dificuldades detectadas na realização da missão, para que o Canal Norte do Rio Amazonas, de Macapá até o Oceano Atlântico, desse total acesso à livre navegação. 

Após essa execução náutica, os navios procedentes do Hemisfério Norte, em demanda aos portos de Santana (AP), Manaus (AM) e Iquitos (Equador), tiveram um encurtamento na rota marítima, em cerca de 400 milhas, comparando com a antiga rota feita de Belém (PA), através do Canal de Salinas e Bahia de Marajó, em águas de pouca profundidade, o que antes determinava um tráfego de navios de pequeno calado, o que ocasionava um maior consumo de tempo e combustível nas viagens. 

Graças a esse empenho do extinto Governo Territorial do Amapá (a partir de 1951), em parceria com a ICOMI e o Ministério da Marinha, que puderam liberar desde meados de 1956, a navegação de grande calado no Canal Norte do Rio Amazonas, que durante décadas recebeu dezenas de cargueiros e petroleiros nacionais e internacionais, que daqui levaram boas impressões sobre nossos aspectos sociais e principalmente minerais. 

Mortes durante a missão 
Embora a difícil tarefa de efetuar o levantamento e balizamento do Canal Norte do Rio Amazonas configurasse um marco pioneiro para a Marinha Brasileira, ela também teve um preço bastante elevado em termos de vidas perdidas. 

Pelo menos duas mortes de oficiais da Marinha do Brasil foram registrados durante a missão. 

Notícia da morte de um Oficial da missão no Amapá
A 1ª morte aconteceu no final da tarde do dia 04 de novembro de 1952, quando três Oficiais de alta patente da Marinha Brasileira (além de um fotógrafo particular, contratado para registrar as ocasiões formais da Diretoria de Navegação da Marinha), morreriam em um desastre de avião na Serra de Petrópolis (RJ), quando regressavam da missão inicial dos trabalhos de balizamento náutico no Amapá. 

No impacto mortal faleceram o 1º Tenente Aviador Cid Spíndola do Nascimento, o 1º Sargento Mecânico João dos Santos Ferreira, o cartógrafo Augusto do Rego Barros Martins e o fotógrafo Geraldo de Farias. O avião da Diretoria ficou totalmente destruido. 

Já a 2ª morte aconteceu na noite de 18 de abril de 1953, no cais do trapiche da cidade de Macapá (AP), quando o 1º Tenente José Ribamar dos Reis Castello Branco , integrante do NHI “Rio Branco”, morreria afogado (cairia do trapiche dentro das turbulentas águas do Rio Amazonas) quando retornaria para bordo do navio. 

Apesar desses tristes registros, todo esse levantamento do Braço Norte do Rio Amazonas foi a maior e a mais difícil campanha executada pela Hidrografia Brasileira para sua época.

Nesse trabalho, além do aprendizado que proporcionou à sua oficialidade, contribuiu favoravelmente para o ânimo dos hidrógrafos, pois se reconheceu, com a execução daquela árdua tarefa, a possibilidade de empreender-se o levantamento de grandes áreas da costa brasileira, em um curto espaço de tempo. 

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