Barco “Novo Amapá”: De fato, quantas pessoas embarcaram nessa viagem?

De Santana, último registro do barco "Novo Amapá"
Na noite do dia 06 de janeiro de 1981, o Barco-motor “Novo Amapá” tombara na foz do Rio Cajarí, levando para dentro das águas centenas de vidas, muitas destas não mais retornariam para seus lares, deixando uma lacuna de dúvidas e injustiças que se levam há pelo menos 36 anos. 

A embarcação havia deixado o Porto de Santana (AP) por volta das 15hs daquele mesmo dia, com o propósito de chegar ao município de Monte Dourado (Estado do Pará), fazendo uma escala rápida no distrito do Jarí – a localidade somente se transformaria em município seis anos depois. 

Para quem já era acostumado com a viagem, o percurso duraria menos de 19hs entre o ponto de partida e o local de chegada. No entanto, algumas perguntas vêm atravessando décadas por parte de inúmeras pessoas, principalmente por familiares das vítimas desse naufrágio, considerado o maior já ocorrido no Brasil, sendo o 13º do planeta. 

Nos rostos de despedida dos passageiros ....
Entre as mais questionadas perguntas que intrigam historiadores até hoje estão três (03): Quantas pessoas haviam dentro do barco? Quem foram os culpados pelo naufrágio? Foi aberto algum inquérito para apurar as causas? 

Em resposta adiantada para a última pergunta, houve “sim”, não apenas um, mas dois inquéritos instaurados. 

O 1º inquérito foi criminal, instalado dias após o naufrágio, determinado pelo então governador do Amapá Comandante Anníbal Barcellos, ficando a cargo a da Secretaria de Segurança Pública. Porém, poucas informações relacionadas a esse inquérito ficaram à disposição da imprensa da época e bem menos à sociedade amapaense. 

Já, outro inquérito foi aberto pela Capitânia dos Portos, e depois encaminhado ao Tribunal Marítimo (RJ) para que fosse cautelosamente apurado. Nesse inquérito marítimo (Processo n.º 10.819) – de acesso livre para consulta pública – é possível encontrar inúmeros esclarecimentos que demonstram com clareza a dimensão do desastre que colocou esse naufrágio entre os maiores do mundo. 

... para vim depois a triste notícia do naufrágio
Nesse 2º inquérito – aberto em maio daquele ano – existem cerca de 800 folhas recheadas de registros técnicos da embarcação, cópias legais da documentação da tripulação, além de históricos de viagens realizadas anteriormente pelo barco e mais de 60 depoimentos de pessoas envolvidas no resgate das vítimas e sobreviventes. 

Um extenso material jurídico, diferente do instaurado pelo Governo do Amapá que recolheu – em sua maioria – apenas registros de reclamações de passageiros e viagens da embarcação, e cerca de 30 depoimentos. 

Bagagens diversas
Segundo o inquérito da Marinha Brasileira, o Barco “Novo Amapá” carregava um número muito elevado de mercadorias para aquela viagem. 

Através de levantamentos feitos com sobreviventes e comerciantes residentes em Monte Dourado (que aguardavam por mercadorias que vinham dentro do barco), foi possível a Capitânia dos Portos avaliar – de forma aproximada – a quantidade de produtos que estavam à bordo da embarcação. 

Um dos barcos chega trazendo sobreviventes
Com exceção das bagagens pertencentes aos passageiros, havia 53 engradados de bebidas e refrigerantes, 79 caixas contendo gêneros alimentícios, além de dois (2) veículos de médio porte (carros), sendo que um deles estava parcialmente desmontado. 

“Ressaltamos que vários registros foram levantados e não souberam informar a quem de fato seria proprietário dos veículos”, descreve um trecho do inquérito marítimo. 

Passageiros
O número preciso de passageiros que estavam à bordo do Barco “Novo Amapá” é o que vem mais intrigando as gerações com o passar dos anos. 

Sepultamento das vítimas no Cemitério de Santana
Em cada inquérito instaurado (o do Governo do Amapá e da Capitânia dos Portos), os números são distintos e chegam a assustar, pois, de acordo com as investigações, o barco não teria suporte físico para mais do que 350 pessoas embarcadas. 

Mas, baseado em um boletim produzido pela Secretaria de Promoção Social do Governo do Território do Amapá – e publicamente divulgado no dia 13/01/1981 –, o “Novo Amapá” teria deixado Santana com 595 pessoas à bordo, sendo que 262 haviam morrido, 71 desaparecidos e 333 sobreviventes. 

Número de mortos nunca foi oficializado
Os dados feitos pelo governo amapaense se baseou nos atendimentos que foram realizados aos familiares das vítimas e sobreviventes durante suas chegadas ao Porto de Santana, ocorrido entre 09 e 12 de janeiro corrente. 

Porém, no inquérito marítimo os números de passageiros são bem maiores. Estima-se que havia 686 pessoas que viajavam no barco, distribuídos em sobreviventes (365), mortos (291) e desaparecidos (30). 

As informações colhidas pela Capitânia dos Portos não se deteve apenas aos atendimentos feitos pelo Poder Público no Porto de Santana, como também nas mais de 40 embarcações particulares que estiveram envolvidas no local do naufrágio, pois, segundo o inquérito, “muitos sobreviventes pediram para ficar em Monte Dourado, por está mais próximo do que em Santana, e isso pode ter causado essa evasão de informações de dados para o Governo do Amapá.”

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