A paralisação dos profissionais da educação do Estado do Amapá não é um ato isolado nem fruto de radicalismo. Trata-se, antes de tudo, de uma resposta acumulada a uma política recorrente de fragmentação de direitos, estratégia que, ao longo dos anos, tem esvaziado conquistas e ampliado a distância entre trabalhadores e governo.
O ponto central da mobilização atual é objetivo e incontornável: os 11,83% de reajuste que não foram pagos. Não se trata de um número abstrato, mas de um direito concreto que vem sendo sucessivamente diluído por meio de parcelamentos.
O professor de Matemática Messias Flexa esclarece que “em 2023, o reajuste foi dividido em duas partes: 5,6% linear e, posteriormente, 4,16%. Já em 2025, repetiu-se a fórmula: 6,27%, seguidos de 5,73% concedidos somente no fim daquele ano”. Na prática, longe de representar negociação, essa conduta revela uma política de desvalorização permanente.
O resultado é previsível: perdas acumuladas, desvalorização profissional e um ambiente de trabalho instável. Ao parcelar reajustes, o governo compromete o poder de compra dos educadores e impõe uma lógica de incerteza que fragiliza toda a estrutura educacional.
Diante desse cenário, os profissionais pressionam pela reabertura imediata das negociações, com a exigência do pagamento integral dos 11,83% e, naturalmente, com retroatividade. Vale destacar que esses 11,83%, somados aos 5,4% já concedidos, completam os 17,87% reivindicados para 2026, índice que expressa tanto reposição imediata quanto parte das perdas acumuladas ao longo dos anos. A reivindicação é, na verdade, o mínimo diante de um histórico de cumprimentos parciais da lei do piso.
A crise, porém, vai além dos reajustes pontuais. Há um problema estrutural que o governo insiste em tratar de forma periférica: a defasagem salarial histórica.
Desde a lei que instituiu o Piso Nacional do Magistério, em 2008, os profissionais da educação do Amapá acumulam perdas que ultrapassam 130%. Esse dado, por si só, evidencia que não se trata apenas de corrigir distorções recentes, mas de enfrentar um passivo que se arrasta há mais de uma década.
Por isso, outra exigência central da categoria é a criação de uma mesa permanente de negociação, capaz de tratar dessas perdas continuamente. Sem esse compromisso, qualquer acordo tende a ser paliativo e, como já demonstrado, facilmente fragmentado ao longo do tempo.
A paralisação, portanto, expõe uma disputa salarial vital para toda a categoria e desnuda um modelo de gestão que tem optado por contemporizar diante das crises em vez de resolvê-las, que faz propaganda para confundir a população e cooptar profissionais da educação a votar contra seus pares nas assembleias da categoria.
Ao insistir em parcelamentos e postergar a valorização dos profissionais da educação, o governo alimenta o ciclo de descrédito que o cerca.
Ignorar esse movimento é um erro político e administrativo. Quando profissionais da educação cruzam os braços, não é apenas uma categoria que se levanta, é todo um sistema denunciando o abandono e a negligência do poder público.
Não há espaço para manobras: 11,83% não pagos e mais de 130% de defasagem acumulada constituem um absurdo. Essa dívida tem responsáveis e precisa ser quitada. Ignorar o problema é aprofundar a crise e intensificar a luta.
Por Elissandra Lopes, professora da rede pública estadual de ensino.
Acompanhe nossa próxima matéria sobre assédio moral nas escolas públicas do Amapá.
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